Informe

     Eu nem dormi. O soar de sua respiração me agradava tanto que o sono fugiu indo para bem longe junto com os seus sonhos. Gostaria de vê-los. Senti-los. Você escapou para o único lugar onde fica bem longe de mim e que não posso te alcançar. Se ao menos eu pudesse dar uma espiadinha e saber quais são as maravilhas que passam pela sua cabeça, aquilo que faz você dar um pequeno sorriso enquanto seus olhos embalados enxergam tudo o que não posso ver. Odeio dormir.

     Seus pés permanecem quietos, mas você deve estar percorrendo milhas e milhas em viagens longínquas, ou até mesmo navegando pelas estrelas. Os meus permanecem incessantemente nervosos, tentando correr atrás de você, tentando acompanhar os seus pequeninos pés que galgam quilômetros enquanto ando centímetros. Que injustiça

     Como não posso acompanha-los, tento prender minha atenção em outra parte do seu corpo. Talvez as mãos? Mãos estas que criam universos e destroem galáxias num único estalar de dedos. São mãos poderosas que, mesmo fora desse recanto em que você se escondeu, podem amassar meu coração com um toque. Estremeço. A magnitude de sua força é descomunal, preciso me agarrar a outro lugar...

     Quem sabe seus cabelos? Esparramados em seu velho travesseiro como um rio caudaloso negro pela escurdão, mas ao mesmo tempo com um brilho diáfano refletindo a luz do luar que timidamente invade sua janela. Um rio encoberto com cheiro de flores silvestres. Parece mesmo que toda a natureza se empenhou em um experimento único de odores magníficos para coloca-los em seus lindos cabelos. É tão envolvente que começo a ter alucinações. Ver você assim é como sonhar acordado. Preciso voltar à realidade. Preciso me segurar em outro lugar

     Ah, mas quem sou eu para enganar a mim mesmo? Disse tudo isso para tentar escapar daquilo que atraia meus olhos com uma intensidade colossal. Daquilo que eu não queria olhar pois sei que uma mistura de dor pungente e deleite celestial vão invadir minha alma. A única coisa capaz de me puxar do inferno da vida para o paraíso do seu amor e, logo em seguida, me defenestrar da janela dos céus diretamente às chamas do submundo. A grande profusão de paradoxos que me atordoam, me desnorteiam e me transformam num idiota completo e sem rumo. Ah, os seus lábios... Cometeria os maiores crimes, as maiores atrocidades ; arrancaria os céus, explodiria a lua, apagaria o sol com baldes d’água; carregaria o mundo em meus ombros, invadiria cidades, traria fogo aos homens só para vê-los; mataria o gigante com a espada envenenada, velejaria a esmo enquanto morro aos poucos, enfrentaria reis. Tudo. Tudo só para que, pelo menor instante que seja, minha boca possa encontrar o caminho de seus lábios

     Mas, num instante, você acorda. Se levanta e caminha em direção ao banheiro. Sai de lá magnifica como entrou. Se troca e vai embora pois o dia já está começando. Eu? Eu fico lá, estático, preso em meus pensamentos. Você não reparou em mim pois não estou verdadeiramente lá. Estou morto. Morro todo o dia por você não estar ao meu lado e toda a noite venho te ver, buscando o calor da sua vida que irradia minha alma. Mas você está longe de mim, mesmo fora dos sonhos, mesmo que passe ao meu lado num dia qualquer. Porque agora não passo de uma sombra, um corpo disforme que se mistura à paisagem

     Talvez, quem sabe um dia você me faça ter forma novamente

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