Oceano de ideias



            Já faz um tempo que não escrevo aqui para o blog. Mas a você, minha amiga corajosa que ainda insiste em me ler, dedico essa minha singela explicação. Por que não escrevi durante todo esse tempo? Eis a resposta:
Leitora, o céu está se desmontando em água. Chove tão forte que, sob os grossos pingos d’água que despencam das nuvens, toda a vegetação se encolhe, como se, em meio a sussurros e a frêmitos, rogasse por mais um dia de vida. O vento, como o carrasco facínora, que não hesita em ceifar a vida de suas vítimas, arranca os enormes arvoredos pela raiz. Tronco, concreto, metal contorcido e sangue: tudo dilui-se em meio a gritos desesperados. As sirenes não param pela cidade. São Paulo afunda na água e no caos.
Enquanto isso, minha amiga, flutuo fragilmente sobre o oceano das minhas ideias, perdido... Aqui dentro também chove muito. Mas não há árvores, casas, carros ou pessoas: apenas eu sob a poderosa tormenta que não cansa de tentar me afogar. As ondas jogam-me para todos os cantos. Estou à deriva numa imensidão cinza e hostil.
E eu nado.
As ondas, à guisa de montanhas, bloqueiam minha visão do horizonte. Minha procura por terra firme é inútil. Todo meu esforço é inútil frente àquele colosso de água. A pouca força que tinha se esvai gradualmente e logo começo a afundar. É uma descida sem fim. Sinto-me como uma pedrinha jogada displicentemente no meio de um universo sem estrelas. A escuridão me envolve por completo: já não posso discernir se estou de olhos abertos ou fechados.
E eu desço.
Vou assim até que uma forte luz ofusca minha visão já acostumada ao escuro. Não tive tempo para conjecturar algo que explique o motivo de eu ainda não ter morrido afogado. Certamente era estranho, mas, repito, não tive tempo. A luz avançava em minha direção até que pude perceber que sua fonte era um notebook ligado. Peguei-o sem hesitar: era minha salvação para sair daquela situação inóspita. Munido da luz do notebook, começo a nadar novamente, esforçando-me com a pouca energia que me restou.
E eu nado.
E eu nado e vejo coisas maravilhosas naquele oceano: mundos completamente novos, criaturas nunca antes catalogadas pelos biólogos, histórias de amor que nunca existiram, vidas nunca antes vividas e mortes nunca antes morridas. E todas aquelas belezas brilham aos meus olhos, meus pulmões se enchem de esperanças. Começo a descrevê-las todas em meu notebook. Cada mínimo detalhe que via tornava-se texto! Era o único jeito de gravar tudo aquilo. Precisava mostrar para o mundo tudo o que via. Mas, como se fosse mágica, a água que me mantinha suspenso simplesmente desaparece.
E eu caio.
Era uma queda enorme. Senti o vento rasgando minha pele. Já não pude segurar o notebook, mas ele caia ao meu lado: ambos fadados à morte. Enfim, o chão era duro. Sinto cada vértebra, cada osso, se contorcer e quebrar, se esfacelar. Sinto a dor da queda pungente em todo o meu corpo. Olho em volta e vejo apenas ruínas. O notebook ainda está inteiro, por incrível que pareça, mas minhas mãos estão desfiguradas. Não posso mais escrever. Sigo mancando pelo chão frio e negro, agonizando em meu próprio sangue. Estou tão longe do céu que as gotas de chuva demoram a cair. Ainda chove muito aqui.
E eu ando, esperando que o oceano algum dia volte a me envolver.

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