Esquecimento
Eu
estava em frente ao portão quando os primeiros pingos de chuva começaram a cair
de um céu cinza e rabugento. Soube disso, pois uma gorda gota caiu sobre minha
cabeça daquele jeito irritante que ela sempre faz.
Estava
ali, mas... Bem, o que fui fazer lá mesmo? Perguntei com o olhar para as frias
grades de ferro e elas nada me responderam. Que grosseria...
A
chuva aumentava aos poucos.
Fiquei
parado por mais um tempo, tentando lembrar o motivo de estar ali. Ora, todo
mundo tem um motivo para estar em algum lugar, comigo não poderia ser
diferente. Passaram-se uns 2 minutos – meu terno já começara a ficar bem
molhado – até que reparei na expressão de desconfiança do porteiro. É claro, eu
estava dirigindo um carro velho com um terno de segunda linha com alguns
remendos... As pessoas desconfiam de carros velhos e maltrapilhos. O porteiro
pôs os óculos. Bom, talvez ele não conseguisse me enxergar direito. Confundi as
expressões...
-
Pois não?
Ah...
-
Olá. Eu vim aqui, acho que em busca de alguém, mas não me lembro em qual
apartamento tocar. São tantos... milhares, não?
-
Apartamento? Aqui não é um prédio ou condomínio.
Fiquei
confuso. As pessoas não residiam ali?
Já
estava encharcado.
-
Aqui é um cemitério.
Ah...
Isso explica muita coisa. Como o fato de ele segurar uma pá ao invés de estar
num banquinho com uma prancheta e o motivo de eu estar de terno e segurando
flores. Olha! Eu estava segurando flores! Mas isso não respondia a maior
pergunta: quem eu ia visitar?
Arrumei
o cabelo que já estava ensopado.
Chovia
muito.
-
O senhor poderia me ajudar? Estava a procura de uma pessoa, mas não lembro qual...
-
É parente?
-
Acho que sim.
-
Algum avô ou avó falecido?
-
Não... Acho que era bisavô.
-
Sua família costuma ser enterrada aqui?
-
Sim. Somos os Tcherbaskov, acho que é fácil de achar um nome assim, não?
-
É – ele não riu. Disfarcei meu sorriso de idiota e prossegui:
-
Sabe onde ficam os túmulos da família?
-
Terceira esquerda, depois primeira direita até chegar ao ipê amarelo. Depois
vire à esquerda e vai lendo os túmulos até achar o do seu bisavô ou sei lá quem
você procura.
Ele
é bom. Será que ele estaria aqui desde a época do meu bisavô? Bom, isso não vem ao caso...
Uma
pergunta ainda não foi respondida, contudo. Por que estava ali? Acho que disse
isso em voz alta, pois pude ouvir o coveiro soltando o ar e sussurrando: “que cara maluco”.
Segui
o caminho indicado até que achei o túmulo do meu bisavô. Pedro Fiodorovitch Tcherbaskov. Ele era russo. Veio para o Brasil fugindo da revolução. Bom, isso
foi o que me falaram.
Alguma coisa me compelia a estar aqui, como se fosse empurrado pelas costas por um amigo que lhe dá coragem para tomar o primeiro passo em busca de uma aventura desconhecida. Uma força ao mesmo tempo acalentadora, mas ao mesmo tempo aterrorizante pelo desconhecido. Pois de fato meu bisavô é um desconhecido para mim. Morreu muito antes de sequer eu sonhar em existir. Por quê é tão difícil de lembrar o motivo de ter vindo aqui?
“Pedro Fiodorovitch Tcherbaskov – amado pai e irmão”.
Engraçado.
Lendo o nome dele agora, lembrei de algumas histórias que meu pai me contava da vinda da nossa família ao Brasil. Aparentemente meu bisavô fazia parte de
uma família que, apesar de ascendência nobre da Rússia, a fortuna não mais via os bolsos dos familiares há algumas várias décadas. Apesar disso, o suposto passado glorioso era o suficiente para serem capachos e defensores ferrenhos do tsarismo. Metade da família foi morta no domingo sangrento de 1905 e, pouco tempo depois, os sobreviventes, ele, sua esposa e o filho de apenas dois anos – meu avô – vieram se refugiar no Brasil. Tiveram mais 4 filhos por aqui. Sem emprego e sem
sequer saber a língua de onde estava, começou a coletar resto de gordura das casas da vizinhança, na região
em que se instalou, e fabricava sabão. Chegou a criar uma empresa um tanto quanto proeminente, até que,
quando morreu, os filhos a arruinaram.
É
só isso que sei do meu bisavô. Com certeza tem muito mais coisa sobre ele do
que eu sequer possa imaginar. Mas todo o resto caiu no esquecimento. Muito provavelmente meu
neto não vai saber nada sobre ele, nem como ele veio para o Brasil, já que eu mesmo nem sei o que ele fazia na Rússia. Como se a história de Pedro Fiodorovitch Tcherbaskov
fosse um montinho de poeira e o vento levasse, a cada geração, seus grãos para
longe, espalhados em um lugar inacessível e distante. Até, que o montinho não exista mais.
Até que nem mesmo seu nome seja lembrado. Até que a própria inscrição na lápide
seja apagada. Nesse momento derradeiro, Pedro Fiodorovitch Tcherbaskov nunca existira.
Agora
me lembrei o motivo de estar aqui. Coloquei as flores murchas pela chuva sobre
o túmulo. Pedro, se depender de mim, você ainda existiu. Minha consciência está
melhor agora.
Só que uma pergunta invade a minha mente como um menino que entra correndo e esbaforido na cozinha ao voltar da escola para perguntarà mãe, de forma inocente e atabalhoada, o que haveria de almoço: Mas
e meu tataravô?
Estremeço. Como a mãe que estremece já que não sabe o que dizer ao filho que não tem almoço, pois todas as reservas se foram após perder o emprego. O futuro é tão palpável quanto o ar que nos rodeia e a solidez do passado se dissolve em amargor diante das incertezas.
Serei
também mais um grão de poeira vagando pelo esquecimento?
A chuva continua a lamber meu terno esburacado e cai vertiginosamente sobre a lápide de meu bisavô. Não sei mais se tremo de frio ou de angústia.
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