O guarda-chuva amarelo



Gabriela abriu os olhos mas só conseguia ver algumas manchas negras com um fundo branco. Não podia ser o teto do seu quarto; ele tinha uma constelação de estrelas fosforescentes e uma grande luminária do formato de uma lua. Estava difícil de respirar ali. Pensou por alguns instantes e debalde tentou formular alguma explicação para aquilo. Por fim, resolveu levantar.
Um grande livro caiu sobre seu colo e ali estava, assim como deixara quando fora dormir, seu quarto. Lembrou-se que não terminara o capítulo. Edmond Dantés ainda estava em sua inexorável prisão no Castelo de If. As quatro paredes negras, úmidas e frias de sua cela, o estado deplorável do rapaz, seus devaneios que beiravam a loucura, tudo isso mantinha-se fresco em sua mente como uma tela a óleo que acabara de ser pintada. Gabriela não compreendia como alguém poderia sobreviver em uma prisão, completamente sozinho, sem ter notícias de seus familiares e daquela a quem se ama perdidamente...
Mas hoje era quarta-feira e isso significava visitar sua avó. Ela teria que ir lá às dez e ainda eram oito horas da manhã: tempo de sobra para tomar um bom banho e um belo café da manhã com o Buzz, que ainda dormia no travesseiro que ela derrubara durante a noite. Gabriela, então, desceu da cama, pulou sobre o lindo pastor-alemão, e dirigiu-se ao banheiro.
Tomou seu banho quente e demorado. Fazia um dia frio e chuvoso, era inverno: tempo propício a um chuveiro bem quente e a um cappuccino soltando vapor. Saiu de seu quarto e caminhou até a cozinha, onde as migalhas e a xícara de café de sua mãe ainda repousavam sobre a mesa. Sentiu-se um pouco sozinha naquele momento, mas a presença de Buzz, que já havia acordado e corria ao seu lado, abanando o rabo, a fazia esquecer da solidão.
Gabriela, então, preparou seu cappuccino e ficou observando o vapor ascendendo até quase chegar ao teto. Gostava de ficar olhando a fumaça e imaginava bailarinas dançando e fazendo acrobacias no ar para a plateia de gigantes, ela e Buzz.
            Faltavam vinte minutos para as dez horas. Gabriela, já com seus trajes típicos de inverno (sobretudo bege, calça jeans e All Stars preto), pegou seu guarda-chuva amarelo, que descansava ao lado da porta, e saiu.
            Caía uma chuva gorda e forte, do tipo de gota que, quando cai na cabeça, dá aquela sensação ruim ao se espalhar pelo nosso couro cabeludo. Não se via nenhum sinal do sol naquela manhã. Mas Gabriela, munida de seu guarda-chuva amarelo, saiu elegante e pomposa. Subiu a rua até chegar à Avenida Paulista. Lá, um turbilhão de gente andava pela calçada, muito mais que o comum para aquele horário. Andou um pouco e, perguntando a algumas pessoas, Gabriela descobrira que o metrô havia quebrado. Ela teria de ir a pé até o Hospital das Clínicas. Sem perder o ânimo, começou sua caminhada.
            Era difícil andar no meio de toda aquela gente. Gabriela via um mar de guarda-chuvas negros que, sob a forte tempestade que fustigava-lhe o rosto, apesar de estar sob seu guarda-chuva amarelo, moviam-se e ondulavam-se como enormes ondas capazes de afundar o maior dos navios. No meio daquela profusão negra, apenas seu guarda-chuva amarelo se destacava, como aquelas boias no meio do mar que vemos em filmes de náufragos. O amarelo já não exprimia sua alegria habitual. Era uma gota de tinta amarela diluída no oceano negro que parecia se estender por quilômetros à frente.
Gabriela sentia-se extremamente sozinha. Lembrou-se de Edmond Dantés, em seu cárcere maldito. Sentia-se como ele. Presa, acorrentada por grilhões inquebrantáveis, mas sem a alma beata do abade Faria para amenizar-lhe as dores. Queria correr, mas a grande massa negra não permitia. As ondas oscilavam para lá e para cá. Não aguentava mais segurar-se em sua frágil boia amarela. Até que uma lufada forte passou rasante sobre ela e levou seu guarda-chuva para longe.
Sentia a tempestade castigar seus ombros. Bastou alguns segundos para estar completamente encharcada. Era como um náufrago, flutuando sobre suas esperanças de encontrar terra firme.
Andou muito até chegar ao hospital, tomando chuva pelo trajeto inteiro. Sentou-se na cadeira da recepção, encolheu-se para se esquentar do frio terrível que cortava seus ossos. Não pôde segurar as lágrimas que se perdiam em meio aos cabelos encharcados.
Solidão, teu nome é cidade.

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