Uma nota de dois...



Boa tarde, querida leitora! E se estiver lendo em outro horário: bom dia e boa noite!
Aqui vai mais uma crônica! Espero que goste. Boa leitura!

A história que contarei hoje é história com ‘H’! É a pura verdade verdadeira... Mas penso eu que a leitora queira provas de sua veracidade, correto? Pois bem, ei-las: esse evento curioso ocorrera às 21:53, de uma quarta-feira, no dia 19/11/2014. Ainda não acredita em mim, cara amiga? Pois bem, tenho a ferramenta inexpugnável que garante autenticidade a qualquer texto: Cientistas da Universidade de Princeton, em Santarém, na Alemanha, confirmaram a ocorrência desse evento. Além disso, o professor Alexandre Candelabro, PHD em ciências da natureza e suas tecnologias, afirmou: “É engraçadíssimo como um evento dessa magnitude nunca fora estudado antes pela comunidade científica. Acredito que a comprovação desse fato trará novas perspectivas aos estudos vindouros!”
Então, amiga leitora, acredita em mim? Tenho certeza que sim! Agora que estou com meus ombros livres desse fardo poderei prosseguir sem hesitações.
Enfim, estava eu, em um McDonald’s da Av. Paulista, encurvado sobre meu lanche desfalecido. Não que eu tenha me importado com seu estado. Muito pelo contrário: comia-o com gosto – ousaria dizer que com um certo deleite (a fome era tanta!). Absorto em meu devaneio sobre o lanche, por pouco que não percebo a aproximação de um garoto, aparentemente de uns doze anos de idade, de camiseta vermelha, shorts e tênis baratos. Ele olhava para os lados, perscrutando o local. Aviso já que meu celular estava sobre mesa. O garoto estendeu o braço até chegar perto da minha bandeja, próxima ao aparelho, onde repousava o lanche decrépito. Gelei. A vontade era de gritar, soltar um urro monstruoso. Se funciona com os felinos, funcionaria comigo. Já havia projetado minha mão sobre o celular. Ia protegê-lo com a minha própria alma. Tudo isso ocorrera em um segundo!
Mas, para meu espanto – digo espanto, pois, com efeito, era a última coisa que eu esperava – o garoto depositou às pressas um papel ao meu lado. Li-o: “Por favor me ajude. Preciso de dinheiro para alimentar minha família. Aliás é melhor pedir do que roubar certo?”
Os nervos esfriaram. Faltavam as vírgulas, mas não podia exigir tanto de um garoto de doze anos. Confesso que soltei um suspiro aliviado. O lanche assentou devidamente no fundo do estômago para ser digerido. Antes pedinte do que ladrão! Não é mesmo, minha amiga? Pensei em pegar a nota de dois reais que a atendente do McDonald’s recusara, alegando que não havia troco o suficiente. Não só pensei, como o fiz. Afinal, o rapaz não roubou meu celular! Há de concordar comigo que ele merecia uma recompensa...
Mas só uma recompensa não bastava. Coitado do rapaz. Ele precisava de algumas palavras de alento. Sem falar que todos as pessoas que estavam no local, e que talvez tenham passado pela mesma situação que eu, nada diziam. Apenas entregavam displicentemente algumas moedas com o rosto congelado no mais frio dos mármores. Eu precisava ser diferente.
Munido da nota de dois, mergulhei em minha mente a procura do que dizer. O tempo para pensar era escasso. Ele já estava se aproximando. Quando o rapaz pegou a nota, exclamei:
- Boa sorte! – ele agradeceu.
Boa sorte? Boa sorte!! Esse rapaz não precisa de sorte, minha amiga! Ele precisa de estudos e oportunidades para superar suas mazelas. Ele precisa de tudo, menos sorte!
Como um trovão que rompe o céu noturno e avassala um enorme arvoredo o qual, por fim, consome-se em chamas, um pensamento irradiou em minha mente e destruiu minhas crenças. E se, na verdade, ele está pedindo dinheiro para satisfazer um vício? Drogas, ou qualquer outra coisa... O que realmente ele vai fazer com meus dois reais? Tenho certeza que a leitora teria esse mesmo lampejo...
Conjecturas dominaram minha mente naquele momento. Via-o num andar trôpego, em alguma rua do centro da cidade, tartamudeando palavras incompreensíveis, como os ébrios, mas com olhos esbugalhados, injetados de sangue, como os loucos. Depois, via-o prostrado ao chão, segurando, em uma mão, uma nesga de vida, na outra, uma pistola. Banhado em seu próprio sangue, o brilho de seus olhos se apagava aos poucos, como a brasa de uma fogueira a crepitar em meio à garoa. Uma forte náusea tomou conta de mim. Larguei o final do lanche em cima da bandeja. Definitivamente, não poderia permitir isso. Quem sabe eu possa mudar a vida de um pequeno ser fadado à desgraça? E se eu mostrar a ele que o estudo é o melhor caminho para uma vida melhor?
Minhas forças foram depravadas. Não pude encontrar o rapaz. E provavelmente nunca saberei o que foi feita daquela nota de dois. Ou, quem sabe?... Perdoe-me, amiga leitora, mas só de lembrar-me daquele momento funesto, não consigo mais escrever. Minhas energias se esvaíram, confesso. Deixe que contarei em um momento mais oportuno...

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