Insônia
Boa tarde, querido leitor! E caso esteja lendo em outro horário: bom dia e boa
noite!
Aqui está minha primeira crônica para esse blog! É uma singela homenagem ao
Sandman do Neil Gaiman. Espero que apreciem! Boa leitura!
Cá estou, sem sono – novamente; e
para variar um pouco minha rotina noturna. Hoje, em específico, não sei o
porquê, mania de cronista decerto, resolvi escrever sobre a companheira que não
desgruda de mim há tempos: a Insônia.
Aqui está ela, ao meu lado, sentada numa cadeira, observando com seus olhos
atentos minha inabilidade em descrevê-la. Lindos olhos, diga-se de passagem.
Olhos profundamente negros como seria o céu noturno se esquecessem de pintalgar
pontinhos brilhantes. Ao observá-los, sinto-me como na beira de um lago, logo
após o ocaso, antes da lua ascender e despejar seu brilho prateado sobre os
cimos dos grandes arvoredos, com os olhos imersos naquelas águas frias e
negras, mas com a mente longe, bem longe, em devaneios infindáveis, imaginando
o que haveria lá dentro.
Uma senhora altiva, com ares de uns trinta e cinco a quarenta anos de idade. Aliás,
idade sublime para as mulheres, onde mantêm ainda a beleza da mocidade, mas
respiram o ar da experiência.
Sem adornos e atavios, a Insônia conserva a elegância da simplicidade. Seu
longo vestido negro, contrastando a pele alvíssima, delineia um belo corpo,
cheio de curvas. Acho que minha humilde cadeira de estofado vermelho é um
assento ignóbil para uma pessoa tão ilustre! Cabelos negros, compridos e
extremamente lisos, encimam um rosto de linhas belas e delicadas. A
voluptuosidade dessa mulher é tão estupenda que, eu diria, é capaz de tirar o
sono de qualquer um, por anos!
Cansado de ficar vislumbrando sua imagem, resolvi conversar com ela:
-
Boa noite, querida Insônia. Mais um dia que nos reencontramos, certo?
-
Boa noite, meu querido. Sabes que não te abandonarei tão cedo – Disse-me com
uma voz tão suave e calma que entrei em letargia por alguns segundos, com os
ouvidos amaciados pela entonação aveludada.
-
Você sabe que, amanhã, tenho de acordar bem cedo, né?
-
Sei, sim.
-
Por que, então, você vem tirar meu sono?
-
Eu gosto, ué. Capricho, talvez? – Ela parou um pouco, contemplando o infinito –
Na verdade, é minha razão de existir.
-
Sua razão de existir é tirar meu sono? Pelo amor de Deus! Por acaso me ama?
É
verdade que eu disse isso um pouco bravo. Aliás, foi uma pergunta retórica, só
para constar. Eu estava entorpecido e irritado pela falta de sono... Caro
leitor, você me compreende né?
Mas, enfim, para o meu espanto, ela não se ofendeu. Muito pelo contrário: minha
frase tirou altas gargalhadas da bela senhora:
-
Amar-te? Eu? Tenho mais idade do que tu imaginas. Tu és apenas um escritorzinho
medíocre, mas é de tua imaginação que me alimento. E ela é bem saborosa... Mais
ainda quando assumo essa forma. Não aguentas um belo corpo feminino, não é?
Safadinho...
Ela falou com tanta sinceridade que fiquei estarrecido. Alguém se alimentando
de mim! E usando ferramentas tão obscenas! De fato, existem bactérias que fazem
isso a todo o momento, mas elas não proferem isso em alto e bom som!
A
Insônia levantou-se e começou a vaguear pela sala. Olhava, de vez em quando,
minha cara de assustado e sorria, mostrando seus dentes cor de pérola. Ficamos
assim por poucos minutos até ela quebrar o silêncio:
-
Ah, Morfeu... Por que vens sempre para estragar meu divertimento, querido?
Eu
não havia percebido, mas uma figura extremamente magra e pálida, de feição
austera, vestida em uma enorme túnica azul-marinho, estava em pé, atrás de mim.
Seu cabelo era tão negro quanto o da Insônia, mas todo engrenhado, como fica
nosso cabelo quando acabamos de acordar. Ela tinha olhos bem pretos e brilhantes.
Brilhantes mesmo! Fulguravam como duas estrelas. A figura carregava, ao lado de
sua cintura, uma algibeira marrom. Além disso, tinha no pescoço um colar com um
enorme rubi encrustado e, o mais curioso, uma máscara de gás pendendo na mão
esquerda.
-
Insônia, há dias que você vem incomodar esse rapaz. Não posso permitir que isso
continue, você sabe disso...
Ela cruzou os braços e ficou encarando a figura misteriosa que ela chamara de
Morfeu.
-
Vou precisar usar a força de novo? – Disse ele.
-
Não. Tu és insuportável, Morfeu, sabias? Gostaria eu que tu estivesses ainda
preso como um cachorrinho. Não me trarias problemas – Dizendo isso, sua imagem
começou a se desvanecer até sumir.
-
Relaxe agora, rapaz. Ela não lhe fará mais mal – finalizou, pegando a algibeira
da cintura e abrindo-a, retirando seu conteúdo. Era areia!
-
O...obrigado – balbuciei – Mas eu só queri...
Mal tive tempo de terminar essa frase e o Morfeu jogou a areia sobre meus
olhos. Simplesmente apaguei.
Acordei no outro dia com uma dor nas costas horrível. Passei a mão nos olhos
para tirar a ramela e fui tomar um café na padaria. Quando estava fechando o
portão de casa, passou um rapaz ao meu lado que devia ter, no máximo, uns vinte
e cinco anos de idade. Estava fazendo cooper, provavelmente, pois seu traje o
denunciava. O mais esquisito eram seus olhos: negros e brilhantes. Brilhantes!
Olhou pra mim e disse:
-
Dormiu bem, rapaz? – acenou-me e foi embora, descendo a rua.
Fiquei parado ali, na frente de casa, por uma hora. Foi o que a vizinha me
disse...
Sempre falo para minha irmã querida, quando nos falta palavras recorremos ao poetas, pois eles conseguem romper o silêncio e colocar no papel o que queremos falar mas não conseguimos expressar e assim agente se emociona...Você já é um poeta!!!
ResponderExcluirPoxa, muito obrigado!! De verdade! Mas, sendo franco, nesse momento você é a poetiza, enquanto eu me emociono e não encontro palavras dignas de agradecimento... Obrigado mesmo!
Excluir